Médico formado em 1968 pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e Doutor pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 1976), Alberto Pellegrini é, atualmente, coordenador do projeto Building Sustainable Research Capacity for Health and its Social Determinants in Low – and Middle-Income Countries (Construindo capacidade sustentável para pesquisa em saúde e seus determinantes sociais em países de baixos e médios ingressos, em português, com acrônimo SDH-Net).
Apoiado pelo Sétimo Programa-Quadro da Comissão Europeia (FP7), o foco do SDH-Net é construir e fortalecer o elo das competências de pesquisa em saúde com seus determinantes sociais (SDH) na África e nos países de baixa renda da América Latina, por meio de uma colaboração estreita com os parceiros europeus. O projeto tem por objetivo a construção de um quadro de referência para o desenvolvimento de capacidade em pesquisa interdisciplinar no campo dos determinantes sociais para a saúde, mediante a integração, o fortalecimento e a construção de competências nas instituições de pesquisa e a implementação de agências em países de baixa e média renda, assim como na Europa. De forma sintética, o objetivo do projeto é avançar o entendimento sobre os determinantes sociais da saúde, melhorar as intervenções em nível local e regional e construir estruturas sustentáveis para equacionar as desigualdades nos serviços de saúde.
As lições aprendidas serão comparadas com as melhores práticas e fatores de sucesso em outros cenários latino-americanos, africanos e globais, lidando com as lições aprendidas de como formar competências de pesquisa em SDH, dando grande relevância ao seu conteúdo.
Alberto, que é pesquisador em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz e Coordenador do Centro de Estudos, Políticas e Informação em Determinantes Sociais da Saúde (CEPI-DSS), da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca/FIOCRUZ, conta, nesta entrevista exclusiva ao Bureau Brasileiro para Ampliação da Cooperação Internacional com a União Europeia (BB.Bice), como é ter um projeto apoiado pelo 7º Programa-Quadro da Comissão Europeia e traz dicas sobre como construir parcerias para o desenvolvimento de atividades de cooperação internacional em pesquisa.
Confira!
Como conheceu o Programa-Quadro?
A Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) dispõe de um Centro de Relações Internacionais em Saúde (CRIS), encarregado de promover contatos e parcerias da FIOCRUZ com instituições do exterior com o objetivo de desenvolver atividades de interesse comum, particularmente no campo do desenvolvimento científico e tecnológico em saúde. Uma vez identificada uma oportunidade de colaboração com outras instituições, o CRIS convida a unidade técnica da FIOCRUZ relacionada ao tema para que analise essa oportunidade e faça o seguimento correspondente. No caso do SDH-Net, incluído no FP7 Health -2011, o CEPI-DSS, da Escola Nacional de Saúde Pública/FIOCRUZ, foi alertado sobre essa oportunidade e decidimos engajar-nos no projeto.
Como foi sua aproximação com o Sétimo Programa-Quadro e os parceiros do projeto? Houve alguma dificuldade para o estabelecimento da parceria?
Há mais de um ano estamos estabelecendo contatos regulares com a instituição coordenadora do projeto e com os demais membros da rede composta por instituições de 11 países, por meio de meios eletrônicos e de duas reuniões presenciais. A partir de setembro de 2011, com a reunião de lançamento do projeto em Berlim, esses contatos se intensificaram e os diversos grupos já estão trabalhando intensa e cooperativamente para o cumprimento do cronograma previsto. Não identifiquei dificuldades significativas, exceto algum eventual atraso na transferência de recursos e na aprovação de formas de contratação de colaboradores, o que não prejudicou significativamente o andamento do projeto.
Qual a importância de um programa como o Programa-Quadro para o desenvolvimento da ciência e tecnologia no mundo?
O desenvolvimento da ciência e tecnologia exige a cooperação entre países. Temas como a degradação ambiental, violência, exclusão social, doenças não transmissíveis, determinantes sociais da saúde e tantos outros que estão na agenda de preocupações em nível global exigem a produção de conhecimentos e informações que fundamentem políticas e intervenções efetivas. Nenhum país do mundo pode isoladamente dar conta dessa tarefa, daí a necessidade de estabelecimento de redes de cooperação entre países desenvolvidos, emergentes ou em desenvolvimento para fortalecimento mútuo de capacidades de pesquisa em temas complexos.
Quais são as metas e produtos do projeto?
O projeto permitirá mapear a capacidade de pesquisa dos países participantes no tema dos determinantes sociais da saúde (DSS), identificando instituições, pesquisadores, projetos, produção científica, mecanismos de disseminação e utilização do conhecimento nesses países. Além disso, deverá desenvolver instrumentos inovadores de fortalecimento da capacidade de pesquisa no campo dos DSS, incluindo desenvolvimento de metodologias e planejamento/administração de pesquisa. Utilizando modernas tecnologias de informação e comunicação, o projeto permitirá um estreitamento de relações de intercâmbio entre as instituições participantes, assim como maior difusão das informações e conhecimentos por elas produzidos para os diversos atores sociais que podem utilizá-los.
Quais os impactos positivos que o projeto gerará para a sociedade?
Os DSS ocupam hoje um papel de destaque na agenda de saúde global. Em outubro de 2011, realizou-se no Rio de Janeiro uma Conferência Mundial sobre DSS com representação oficial de mais de 120 países membros da OMS, além de representantes da comunidade científica internacional e da sociedade civil. O tema desperta grande interesse porque há um amplo reconhecimento de que a melhoria da situação de saúde e, particularmente, a diminuição das desigualdades sociais em saúde, depende da atuação efetiva sobre os DSS. Para que políticas e programas de ação sobre eles sejam realmente efetivos, é fundamental que estejam baseados em evidências científicas. Projetos como o SDH-Net, que permitem o desenvolvimento de capacidade de pesquisa nesse tema e intercâmbio de experiências, são, portanto, de grande benefício para a sociedade como um todo.
Há uma compreensão no Brasil da importância de um parceiro como a União Europeia?
A comunidade científica brasileira tem grande tradição de colaboração com os países europeus. A instituição onde trabalho foi fundada por um eminente pesquisador brasileiro, Oswaldo Cruz, que fez sua formação científica no Instituto Pasteur, com quem até hoje a FIOCRUZ mantém estreitos laços de colaboração. Não tenho conhecimento de dados objetivos sobre a magnitude da colaboração em C&T entre o Brasil e a União Europeia. Acredito, entretanto, que há, no momento, um reconhecimento da importância da cooperação internacional para o desenvolvimento da C&T e uma das expressões desse reconhecimento é o programa Ciência sem Fronteiras para apoiar a formação no exterior. Acredito que iniciativas como essa devam estreitar os laços do Brasil com a União Europeia.
Quais os benefícios que esse trabalho em parceria traz para os projetos aprovados e para os países envolvidos?
Hoje há um amplo reconhecimento que a ciência moderna não pode se desenvolver em instituições ou centros isolados da sociedade e do mundo exterior como torres de marfim. O trabalho em redes de colaboração é o que tem proporcionado grandes avanços como o projeto de genoma humano e tantos outros. Nos temas sociais há uma enorme necessidade de intercâmbio de experiências, saber o que funciona e o que não funciona a partir desse intercâmbio e desenvolver em conjunto novas soluções. Tudo isso só é possível por meio do trabalho sistemático em redes de colaboração como as que estão previstas neste projeto.
Quais os principais desafios e dicas na sua vivência de FP7 para ajudar um pesquisador ou instituição que pretendam se candidatar ao Programa?
Baseado em minha experiência na FIOCRUZ, acredito que as instituições de pesquisa devem desenvolver instâncias especializadas na identificação de oportunidades e apoio ao pesquisador. Há uma larga tradição de contatos interpessoais que permitem intercâmbio e cooperação científica, mas acredito que, nos dias de hoje, é fundamental "profissionalizar" ou "institucionalizar" essa atividade, dada a riqueza de oportunidades que se abrem e que o pesquisador individualmente tem capacidade limitada para identifica-las e aproveitá-las.
Para saber mais sobre o projeto, acesse o site http://www.sdh-net.eu/#2.
Parceiros do projeto:
1) Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ)
2) IESE Business School
3) University of the Witwatersrand (WITS)
4) University of Nairobi (UON)
5) Ifakara Health Institute (IHI)
6) Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ)
7) Instituto Nacional de Salud Pública (INSP)
8) Universidad Nacional de Colombia (UNAL)
9) COHRED Group
10) London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM)
11) University of Geneva